No universo da marcofilia pré-filatélica portuguesa, poucas marcas ilustram tão bem a evolução dos procedimentos postais como a marca «P. BRIT.º» (Porte Britannique), aplicada em Lisboa na correspondência transportada pelos paquetes britânicos provenientes do Mediterrâneo e do Brasil.
A análise comparada de duas peças postais excecionais, datadas de 1839 e 1852, confrontada com a classificação publicada por Luís Frazão, permite não apenas reavaliar a cronologia de utilização dos cunhos conhecidos, mas também observar importantes diferenças materiais nas impressões, refletindo a evolução dos processos de marcação postal durante os derradeiros anos da época pré-filatélica portuguesa.
A Identificação dos Cunhos: LSB-PB 1 e LSB-PB 2
Uma observação cuidada das reproduções conhecidas permite corrigir uma interpretação frequente relativa à abreviatura final da marca.
Contrariamente ao que uma análise superficial pode sugerir, os dois cunhos conhecidos apresentam o sinal «º» em expoente, não sendo essa característica suficiente para a sua distinção.
A diferenciação entre os tipos assenta essencialmente na posição e alinhamento desse elemento.
LSB-PB 1
O tipo LSB-PB 1 apresenta:
- «º» extremamente elevado;
- ligeiramente deslocado para a direita;
- próximo da linha superior do enquadramento octogonal;
- ponto final isolado após o «T».
Segundo o catálogo de Luís Frazão, a utilização registada deste cunho decorre entre 22 de junho de 1839 e março de 1852.
LSB-PB 2
O tipo LSB-PB 2 caracteriza-se por:
- «º» colocado numa posição mais baixa;
- alinhamento mais harmonioso com o topo das restantes letras;
- composição geral mais equilibrada.
O catálogo regista a sua utilização entre janeiro de 1851 e 10 de maio de 1852.
A sobreposição cronológica destas datas demonstra que a substituição dos cunhos não ocorreu de forma abrupta, tendo ambos permanecido em serviço durante um período de coexistência.
Duas Peças Postais, Um Mesmo Cunho
As duas cartas estudadas apresentam uma circunstância particularmente interessante: ambas exibem inequivocamente o cunho LSB-PB 1, identificável pela posição muito elevada do sinal «º».
Gibraltar – Lisboa (1839)
A impressão da marca «P. BRIT.º» revela:
- contornos muito definidos;
- traços homogéneos;
- reduzida absorção pelas fibras do papel;
- excelente legibilidade do texto.
O aspeto geral sugere uma tinta relativamente espessa e estável, produzindo uma impressão seca e bem controlada.
Rio de Janeiro – Lisboa – Porto (1852)
A segunda peça foi expedida do Rio de Janeiro em 19 de abril de 1852, transitou por Lisboa em 10 de maio de 1852 e chegou ao Porto em 13 de maio de 1852.
Embora produzida pelo mesmo cunho, a impressão apresenta características visivelmente distintas:
- coloração azul mais viva;
- acumulações irregulares de tinta;
- manchas periféricas e salpicos;
- maior absorção pelas fibras do papel;
- menor definição dos contornos.
A comparação direta entre ambas as impressões evidencia diferenças materiais significativas no resultado final obtido pelo mesmo instrumento postal.
O Que os Exemplares Permitem Afirmar
As diferenças observadas entre as duas peças sugerem uma evolução dos métodos de entintagem utilizados pelos Correios de Lisboa entre 1839 e 1852.
Todavia, a evidência atualmente disponível recomenda prudência.
Embora a carta de 1852 revele características compatíveis com uma tinta mais fluida e absorvente, a reprodução do tipo LSB-PB 2 publicada por Luís Frazão apresenta uma impressão de contornos muito nítidos e secos, visualmente próxima das impressões associadas a tintas mais viscosas.
Deste modo, não é possível estabelecer com segurança uma correspondência direta entre um determinado cunho e uma determinada tecnologia de entintagem.
Os elementos disponíveis permitem apenas concluir que:
- o cunho LSB-PB 1 foi utilizado em impressões materialmente diferentes ao longo da sua vida operacional;
- os cunhos LSB-PB 1 e LSB-PB 2 coexistiram durante os últimos meses conhecidos de utilização;
- eventuais alterações nos materiais ou processos de entintagem não implicaram necessariamente a substituição imediata dos instrumentos postais.
Assim, qualquer associação entre tipologia de cunho e composição química da tinta deverá, por enquanto, ser entendida como uma hipótese de trabalho e não como uma conclusão demonstrada.
O Documento que Amplia a Cronologia Conhecida
A carta proveniente do Rio de Janeiro possui igualmente uma importância marcófila de primeira ordem.
O exemplar apresenta inequivocamente o cunho LSB-PB 1, identificável pela posição extremamente elevada do «º» em expoente.
Todavia, o trânsito de Lisboa encontra-se datado de 10 de maio de 1852.
Uma vez que o catálogo de Luís Frazão (2012) regista este tipo apenas até março de 1852, a peça prolonga a utilização conhecida do cunho em, pelo menos, dois meses.
Mais importante ainda, demonstra que o LSB-PB 1 permaneceu ativo até à última data atualmente conhecida para o conjunto da série «P. BRIT.º», coincidindo precisamente com a data limite atribuída ao LSB-PB 2.
A evidência documental permite, assim, demonstrar de forma inequívoca a coexistência operacional dos dois cunhos nos meses finais da sua utilização.
Desinfeção Postal e Saúde Pública
A carta do Rio de Janeiro testemunha igualmente um aspeto menos conhecido da história postal portuguesa: os procedimentos sanitários aplicados à correspondência proveniente de regiões consideradas epidemiologicamente perigosas.
Na primavera de 1852, o Brasil enfrentava surtos recorrentes de febre-amarela e cólera. Em consequência, a correspondência chegada por via marítima era frequentemente encaminhada para a Estação de Saúde da Torre Velha, em Porto Brandão.
A carta conserva os característicos cortes de desinfeção, efetuados antes do processamento postal final.
Estas incisões permitiam a circulação dos agentes fumigatórios utilizados nos lazaretos sem necessidade de abertura da carta selada.
Concluído o procedimento sanitário, a correspondência seguia imediatamente para o circuito postal normal. Neste caso, a carta foi processada em Lisboa a 10 de maio de 1852 e chegou ao Porto apenas três dias depois, demonstrando a eficiência do circuito postal após a desinfeção.
Conclusão
A análise conjugada da tipologia dos cunhos, da evidência material das impressões e da documentação postal demonstra que a história da marca «P. BRIT.º» é mais complexa do que uma simples sucessão cronológica de instrumentos.
As duas cartas estudadas comprovam que o cunho LSB-PB 1 permaneceu em utilização desde 1839 até, pelo menos, 10 de maio de 1852, ultrapassando a data terminal atualmente registada na bibliografia de referência.
Paralelamente, a comparação das impressões revela alterações significativas no comportamento das tintas e nos resultados de entintagem ao longo desse período. Contudo, o material atualmente conhecido não permite associar essas diferenças a um determinado modelo de cunho nem estabelecer uma sequência tecnológica rigorosa.
A carta do Rio de Janeiro assume, por isso, um duplo valor documental: por um lado, amplia as balizas cronológicas conhecidas do cunho LSB-PB 1; por outro, confirma a coexistência dos dois tipos de marca «P. BRIT.º» nos derradeiros meses da época pré-filatélica portuguesa, oferecendo igualmente um testemunho raro dos procedimentos de desinfeção postal que precederam a reforma introduzida com a emissão dos primeiros selos adesivos em 1853.













