quinta-feira, 7 de maio de 2026

Marcas Postais Pré‑Filatélicas de Faro (1799–1853): Síntese Pedagógica segundo a Metodologia Sistematizada por Luís Frazão

Carta Pessoal Pré-Filatélica – Faro para Lisboa, 6 de Setembro de 1842     🗓️ Data: 6 de setembro de 1842     📍 Origem: Faro, Portugal     📍 Destino: Lisboa, Portugal     ✉️ Remetente: José Bernardo da Cruz *     🧾 Destinatário: Caspar João Pilaer Cônsul Geral dos Países Baixos

Nota introdutória

O presente texto constitui um documento de apoio introdutório à identificação das marcas postais préadesivas da localidade de Faro, dirigido prioritariamente a colecionadores, investigadores e interessados que se encontram numa fase inicial do estudo da préfilatelia portuguesa.

A análise apresentada resulta, por um lado, da observação direta de peças documentadas em coleções públicas e privadas e, por outro, da sistematização crítica da informação disponível na bibliografia especializada. Assumese como referência central e estruturante a obra de Luís Frazão, PréFilatelia Portuguesa. Marcas postais utilizadas em Portugal continental (1799–1853), publicada em 2012, que permanece um dos principais instrumentos de trabalho para o estudo da marcofilia préfilatélica em Portugal.

Importa sublinhar que a identificação rigorosa das marcas préfilatélicas exige sempre prudência metodológica, comparação sistemática de exemplares e um cuidadoso enquadramento cronológico. Pequenas variações no cunho, na cor da tinta, no estado de desgaste do instrumento ou no contexto postal concreto podem conduzir a leituras distintas de uma mesma marca. Por esse motivo, o presente trabalho não pretende substituir catálogos especializados nem apresentar uma classificação definitiva, mas antes funcionar como ponto de partida e guia orientador para o estudo das marcas postais de Faro no período anterior à introdução do selo adesivo.

Dada a natureza técnica e histórica deste domínio, recomenda‑se vivamente a consulta regular de catálogos especializados, literatura de referência e estudos comparativos, bem como o confronto com peças devidamente documentadas. Apenas através de uma abordagem cumulativa, crítica e partilhada será possível aprofundar o conhecimento existente e, eventualmente, contribuir para o refinamento ou revisão de tipologias e cronologias atualmente aceites. Posto isto, presente texto segue a metodologia de identificação, classificação e análise das marcas postais pré‑filatélicas sistematizada e consolidada por Luís Frazão, a partir de práticas e critérios já existentes no estudo da pré‑filatelia portuguesa, hoje amplamente adotada como referência neste domínio.

Este contributo assumese, assim, aberto a correções, aditamentos e ao diálogo com outros colecionadores e investigadores, numa perspetiva de construção coletiva do conhecimento sobre a préfilatelia algarvia e, em particular, sobre a estância postal de Faro.

 

Enquadramento histórico e postal da estância de Faro

Conforme Frazão (2012) refere na sua obra ao longo do século XIX, Faro desempenhou um papel particularmente relevante na organização postal do Algarve, funcionando como ponto de articulação administrativa e logística para a circulação da correspondência na região meridional do país. Esta centralidade resulta, em grande medida, da sua condição de capital administrativa, conjugada com uma estrutura demográfica significativa, fatores que implicaram a necessidade de um serviço postal mais regular e organizado, conforme documentado nas relações postais do período.

Do ponto de vista geográfico, Faro situava‑se a cerca de 17 léguas de Beja e 40 léguas de Lisboa, distâncias com impacto direto na definição das rotas de estafetas e da mala‑posta, bem como nos tempos de circulação da correspondência.

Em termos institucionais, a localidade surge referida nas relações postais de 1799 e 1801, sendo a mala conduzida, em 1811, por estafeta remunerado pela Fazenda Real. No organigrama postal de 1818, Faro aparece já identificada como Correio Assistente, refletindo um grau de estabilidade administrativa mais consolidado no contexto da rede postal nacional.

 

Tipologia e cronologia dos carimbos nominativos de Faro (FAR 1 a FAR 3)

As marcas nominativas tinham como principal função assinalar a origem da correspondência, constituindo um elemento fundamental para o controlo do percurso postal. No estudo préfilatélico, estas marcas assumem ainda um papel essencial na datação aproximada das peças, sobretudo quando analisadas em conjunto com outros elementos materiais e documentais.

No caso da estância de Faro, a distinção entre marcas lineares e marcas ovais, bem como a variação da cor da tinta utilizada, constitui um dos critérios de leitura mais consensuais na bibliografia especializada. De forma sintética, identificamse as seguintes tipologias principais:

Referência

Descrição visual

Variante de cor

Período de utilização

FAR 1

Marca linear “FARO” com caracteres de serifa irregular

Sépia

10‑12‑1807 a 12‑02‑1815

FAR 1

Marca linear “FARO”

Preto

11‑08‑1815

FAR 1 (Det.)

Fase de deterioração do cunho, com desgaste visível nas hastes

Sépia a sépia escuro

03‑09‑1820 a 03‑09‑1824

FAR 2

Marca oval de moldura simples com inscrição “FARO”

Sépia a sépia escuro

14‑07‑1826 a 05‑10‑1834

FAR 3

Marca oval de moldura simples, com tipografia mais regular

Azul

24‑10‑1834 a 22‑05‑1853

A evolução da pigmentação, em particular a passagem gradual do sépia para o azul, bem como o estado de conservação do cunho, constituem indicadores relevantes na análise das marcas. A denominada fase FAR 1 deteriorado, por exemplo, pode permitir uma aproximação cronológica útil, mesmo na ausência ou ilegibilidade de datas manuscritas. A utilização sistemática do azul na marca FAR 3 parece acompanhar um processo de maior uniformização estética, imediatamente anterior à grande reforma postal de 1853.

 

Registos de porte pago e selagem manuscrita

No período pré‑filatélico, a inexistência de selos adesivos implicava a indicação do pagamento do porte por anotações manuscritas ou por marcas específicas. Em Faro, estes registos assumem particular interesse enquanto testemunho do funcionamento prático do serviço postal nas décadas que antecedem a reforma postal.

Até ao momento, não são conhecidas punções fixas de “porte pago” atribuíveis à estância de Faro, sendo os registos identificados invariavelmente de natureza manuscrita.

O exemplo conhecido como FAR‑PPms 1 corresponde às inscrições manuscritas “Franca” e “Pg 35” (35 réis), executadas em tinta de escrever de tonalidade sépia, com data identificada de 14‑12‑1852. A sua utilização em data tão próxima da introdução obrigatória do selo adesivo, com a emissão de D. Maria II, ilustra a persistência do sistema manual de tarifação até aos limites da reforma postal de 1853.

 

Marcas de segurança (“Segura”)

As marcas associadas ao serviço de Seguro ocupavam um lugar particular na hierarquia postal, estando reservadas a correspondência de maior valor económico ou relevância institucional. Na estância de Faro, encontram‑se registadas as seguintes tipologias principais:

Referência

Descrição e características

Cor

Cronologia

FAR‑Sms 1

Marca FAR 1 associada à anotação manuscrita “segura”

Tinta de escrever sépia

15‑07‑1812 a 04‑12‑1812

FAR‑Sms 2

Marca FAR 2 (oval) com anotação manuscrita “Segura”

Tinta de escrever sépia

06‑09‑1829

FAR‑S 1

Marca emoldurada “SEGURA FARO”

Preto

Transição para o período adesivo

A conjugação do cunho oficial com anotações manuscritas realizadas pelo oficial de correio contribui para a raridade e relevância histórico‑postal destas marcas, frequentemente associadas a circuitos restritos da administração, da diplomacia e da burguesia comercial.

 

Conclusão

O estudo das marcas préfilatélicas de Faro permite compreender melhor o funcionamento do correio local antes da introdução do selo adesivo. A evolução das marcas — da forma linear à oval, a maior regularização gráfica dos cunhos e a passagem do sépia para o azul — reflete mudanças graduais na organização postal ao longo do século XIX. Paralelamente, os registos manuscritos de porte pago e as anotações relativas ao serviço de seguro mostram como práticas tradicionais coexistiram com sinais de modernização até muito próximo da reforma de 1853. Esta compilação foi pensada como um instrumento de apoio para os leitores do Núcleo de Filatelia de Faro que se interessam por esta época postal, servindo de base para a observação de peças, o estudo comparativo e o aprofundamento progressivo da préfilatelia algarvia.

Referência bibliográfica

Frazão, L. (2012). Pré filatelia portuguesa: Marcas postais utilizadas em Portugal continental (1799–1853). Branca de Brito Suc.ª Lda.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Contributos para a História Postal de Faro: A Transição para a Era Industrial (Década de 1930)


Breve reflexão sobre a década de 1930, período em que os correios portugueses transitaram de processos predominantemente artesanais para um paradigma industrial. No contexto da historiografia postal algarvia, Faro assumiu um papel de particular relevo, servindo como o principal recetáculo regional desta transformação tecnológica, cujo símbolo mais representativo nas coleção do Museu de Filatelia Sérgio Pedro é a flâmula octogonal.

Faro como Hub Tecnológico Regional
A implementação de sistemas de anulação automática — com recurso a maquinaria especializada de origem norueguesa (Krag) e britânica (Universal) — permitiu um incremento substancial na capacidade de processamento, atingindo débitos de cerca de 15.000 objetos por hora. Faro, enquanto centro nevrálgico do Algarve, foi central nesta estratégia:
  • Eficiência Logística: O correio de toda a região era canalizado para a nossa cidade para ser processado por estas novas máquinas de "golpe único".
  • Padronização e Controlo: A adoção da geometria octogonal para estas marcas mecânicas visava criar uma distinção visual clara face aos carimbos circulares manuais, facilitando a monitorização do fluxo postal crescente.
O Inteiro Postal como Veículo Pedagógico e de Propaganda
Nesta fase, a flâmula postal transcendeu a sua função técnica de inutilização do selo, assumindo uma dimensão comunicacional estratégica:
  1. Instrução Pública: Através de diretrizes como "Colocar os selos no ângulo superior direito", os CTT procuraram educar os utentes para as exigências da triagem mecânica que se iniciava.
  2. Projeção Regional: Pela primeira vez, o carimbo serviu a propaganda do Estado Novo e a promoção do turismo regional, projetando o Algarve como um destino de modernidade e progresso.
Notas Técnicas para o Estudo Filatélico
Para o registo e estudo sistemático, destacam-se os seguintes parâmetros desta emissão:
  • Design e Emissão: Baseada na série "Lusíadas" de 1931, com desenho de Arnaldo Fragoso. O valor facial de 25 centavos correspondia à tarifa para bilhetes postais simples no serviço interno, conforme o Decreto n.º 9424.
  • Identificação de Catálogo: O modelo é frequentemente identificado como OM80 (25c carmim), registando-se a variante OM79 (25c verde-azul).
  • Materialidade: O suporte consiste em cartolina oficial dos CTT, com variações cromáticas entre o salmão e o creme, dependendo da tiragem ou conservação. 

Para uma consulta técnica mais detalhada, informamos que a respetiva ficha de catálogo se encontra disponível no blog Acervo e Ensaio do Museu de Filatelia Sérgio Pedro. Complementarmente, os leitores interessados numa perspetiva comportamental poderão encontrar a análise filatélica psicossocial deste período no blog Psychological Philately.

domingo, 26 de abril de 2026

Acervo & Ensaio — Museu de Filatelia Sérgio Pedro: Anotações Manuscritas e Eficácia Postal: O Caso da Sigla 'A.C.V.' em Postais de António dos Santos Furtado

Acervo & Ensaio — Museu de Filatelia Sérgio Pedro: Anotações Manuscritas e Eficácia Postal: O Caso da...

Nos primeiros anos do século XX, Faro não era apenas a capital administrativa do Algarve. Era também um ponto ativo de ligação a redes internacionais de colecionismo, onde filatelistas e cartófilos locais trocavam postais, selos e correspondência com parceiros em vários países da Europa.

Essa dinâmica, hoje pouco conhecida fora dos círculos especializados, começa a ganhar nova visibilidade graças ao estudo atento dos próprios objetos — bilhetes postais que circularam, foram manipulados pelos correios e chegaram ao seu destino sem nunca suspeitarem que, um século depois, seriam novamente lidos.

Um pequeno detalhe: “verso” e “A.C.V.”

Entre os postais recentemente analisados no acervo associado ao Museu de Filatelia Sérgio Pedro surgem três exemplares particularmente reveladores. Todos foram enviados a partir de Faro para França e todos apresentam uma característica comum:
o selo foi colocado no lado da vista ilustrada, e não no verso, onde normalmente deveria estar.

Para evitar problemas no correio, os remetentes escreveram no canto superior direito do verso — exatamente no local reservado ao selo — uma pequena indicação manuscrita:

  • num caso, a palavra simples e direta “verso”;
  • noutros dois, a sigla “A.C.V.”.

À primeira vista, parecem pormenores insignificantes. Na realidade, são avisos dirigidos ao funcionário dos correios, chamando a atenção para o facto de que a franquia se encontrava no outro lado do postal.

Partilhar soluções numa rede algarvia de trocas

O aspeto mais interessante é que estes postais não pertencem todos ao mesmo remetente. Para além de António dos Santos Furtado, figura central do colecionismo português, encontramos também um postal enviado por António Joaquim Teixeira, outro membro do então ativo International‑Algarve‑Echange‑Club.


Isto mostra que não estamos perante um gesto isolado, mas sim perante uma prática partilhada, nascida da experiência concreta de quem trocava postais internacionalmente a partir de Faro. Uns escreviam “verso”. Outros optavam por uma sigla mais condensada, adequada ao francês, língua dominante do correio internacional da época.

Importa sublinhar um pormenor decisivo:
um dos postais com a sigla “A.C.V.” foi obliterado não numa estação fixa, mas numa ambulância postal em trânsito, onde o controlo da correspondência era especialmente rigoroso. O facto de o postal ter circulado sem taxação confirma que o aviso cumpriu plenamente a sua função.

De Faro para a história da maximafilia

Pouco tempo depois, já em 1918, António dos Santos Furtado viria a propor e a divulgar a fórmula T.C.V. – Timbre, Côté, Vue, que se tornaria a designação clássica dos precursores das cartas‑máximo. Essa nova expressão era mais clara, mais técnica e facilmente transmissível.

Com o tempo, aconteceu algo frequente na história do conhecimento:
a fórmula estabilizada apagou da memória as soluções empíricas anteriores.

Este fenómeno — designado hoje como retro‑normatização — faz com que a versão “oficial” seja projetada para trás no tempo, dando a impressão de que sempre existiu, quando na realidade foi precedida por fases de experimentação, tentativa e adaptação prática.

Apesar de se encontrarem ainda que residualmente a sigla "ACV" em postais, não conseguinos encontramos referências a “A.C.V.” na literatura filatélica, apesar da sua utilização comprovada. O pequeno aviso manuscrito cumpriu a sua missão e, por isso mesmo, tornou‑se invisível aos olhos da história.

Porque isto importa para Faro

Estes postais mostram que Faro não foi apenas um ponto de passagem, mas um lugar de experimentação ativa, onde se testaram soluções que mais tarde seriam sistematizadas e reconhecidas noutros contextos.

Ao valorizar estes objetos e estas práticas, o Núcleo de Filatelia de Faro espera contribuir para uma leitura mais rica da história postal e filatélica portuguesa, devolvendo protagonismo aos agentes locais e às redes informais que deram forma ao colecionismo moderno.

Para quem quiser aprofundar

A análise completa, de natureza curatorial e exploratória, foi recentemente publicada no blog Acervo & Ensaio do Museu de Filatelia Sérgio Pedro, onde se desenvolvem em detalhe as implicações históricas e metodológicas destas anotações manuscritas.

Este texto pretende apenas cumprir uma função complementar: situar Faro no centro da história, a partir dos seus próprios postais.

A documentação detalhada das peças analisadas, incluindo descrição técnica, enquadramento postal e leitura curatorial, encontra‑se disponível nas respetivas fichas de catálogo publicadas no Acervo & Ensaio do Museu de Filatelia Sérgio Pedro, acessíveis através das entradas dedicadas:

Câmara Municipal de Faro (1917): Documento de Permuta Internacional entre António dos Santos Furtado e Louis Leduc PT-BPI-1917-FAO-CCH-01

Rede Global de Colecionismo no início do Séc. XX: Santos Furtado e a Ligue d'Échangistes (Faro-Narbonne) PT-BPI-1917-FAO-CCH-02

sábado, 4 de abril de 2026

Um lugar para o Colecionismo: A Iconografia Rural de Faro no Início do Século XX: Estudo de Três Postais Industriais Anónimos

Um lugar para o Colecionismo: Postais antigos de Faro (Faro - Arredores - Quinta...:  

Resumo

Este artigo analisa três postais fotográficos antigos publicados na página “Um Lugar para o Colecionismo” relativos aos arredores de Faro: (1) Quinta de Santo António e Palacete Júdice Fialho; (2) Moinho do Grelha; (3) Moinho da Atalaia. Através de uma abordagem arquivística, iconográfica e técnicomaterial, demonstrase que estes postais pertencem a séries industriais anónimas produzidas em fototipia entre 1915 e 1930, possivelmente impressas por grandes casas tipográficas de Lisboa ou Porto. A ausência de identificação editorial, a uniformização do verso e o esquema de legendagem inserem estas peças no vasto universo da produção postal portuguesa industrial, marcada pela sua distribuição nacional através de papelarias locais.

1. Introdução

Os bilhetes postais ilustrados constituem fontes primárias de grande relevância para o estudo da paisagem, do urbanismo e das práticas sociais do início do século XX. No caso do Algarve, e particularmente de Faro, a sobrevivência de material iconográfico relativo aos seus arredores é limitada, sendo frequentemente constituída por edições industriais de circulação dispersa. Os três postais analisados provêm de uma mensagem de um dos blog’s do ecossistema digital do Museu de Filatelia Sérgio Pedro, nomeadamente, Um Lugar para o Colecionismo, que apresenta uma seleção de vistas raras da periferia rural de Faro.

A caracterização destas peças contribui para o conhecimento do património cartográfico e fotográfico da região, ao mesmo tempo que evidencia os processos de produção e distribuição dos postais industriais portugueses.

 

2. Contexto histórico e geográfico

Os arredores de Faro, no limiar do século XX, eram marcados pela convivência entre propriedades rurais, casarios dispersos, unidades agrícolas e estruturas industriais tradicionais, como os moinhos. As três vistas estudadas refletem precisamente esta relação entre território, economia rural e património edificado.

 

2.1 Quinta de Santo António e Palacete Júdice Fialho

Esta vista documenta um dos mais importantes palacetes residenciais associados à família Júdice Fialho, uma das linhagens de maior expressão económica e social do Algarve contemporâneo. Embora não existam fontes fotográficas abundantes desta zona, o postal constitui uma das raras representações da paisagem agrícola que circundava o palacete, cuja presença se destaca no fundo da composição.


2.2 Moinho do Grelha

Os moinhos de vento eram elementos fundamentais da economia cerealífera. A iconografia postal relativa aos moinhos algarvios é escassa, tornando este postal um testemunho relevante da paisagem funcional que estruturava o território rural farense.

 

2.3 Moinho da Atalaia

Edificado em posição dominante, o Moinho da Atalaia surge frequentemente referido em documentação municipal devido à sua longevidade e função. A vista postal reforça o seu caráter de marco paisagístico, inserido num território ainda pouco urbanizado.


3. Análise material dos postais

3.1 Técnica de impressão

A análise das três peças indica o uso de fototipia industrial, técnica predominante em postais entre 1905 e 1930 pela capacidade de reprodução de detalhes fotográficos com grande fidelidade. A granulação subtil e a suavidade tonais confirmam esta categoria técnica.

 

3.2 Verso e ausência de identificação editorial

Todos apresentam versos padronizados, com a inscrição “BILHETE POSTAL – PORTUGAL”, linhas de morada e um código numérico/alfanumérico de série, como “100 K”. Estes elementos caracterizam,  produção em massa, tipografias industriais (Lisboa/Porto), ausência de editor local, séries económicas vendidas em papelarias de todo o país.

Não existe qualquer marca editorial, o que exclui a hipótese de edições regionais algarvias — como Alberto Pacheco, Foto Postal Algarve ou Papelaria Moderna — cujas edições sempre incluíam assinatura gráfica.

3.3 Datação

Com base em: técnica de fototipia, formato 9 × 14 cm,  tipologia da legenda, estilo do verso, é possível situar os postais entre “1915 e 1925”, margem cronológica coerente com a produção industrial de vistas regionais e a data de conclusão da construção do Palacete Júdice Fialho

 

4. Circulação e distribuição

Estes postais resultam de produções centralizadas que, não sendo comissionadas por entidades locais, eram adquiridas por papelarias e livrarias de Faro, que as colocavam à venda para residentes e visitantes. A distribuição nacional explica: a uniformidade do design, a ausência de editores regionais, a escassez de exemplares digitalizados.

A sobrevivência destes postais é altamente dependente de coleções privadas, uma vez que séries industriais raramente foram preservadas por arquivos institucionais e são pouco representadas em bases online, como demonstrado pelas buscas recentes.

 

5. Conclusão

Os três postais antigos dos arredores de Faro constituem valiosas representações da paisagem rural e semirrural do concelho no início do século XX. A sua análise demonstra que:

  1.    pertencem a séries industriais anónimas de fototipia;
  2.     foram distribuídos por papelarias locais, mas não editados por elas;
  3.     preservam vistas raras de património edificado e produtivo;
  4.     contribuem para o estudo da memória iconográfica do território farense.

O estudo destes postais confirma, ainda, a necessidade de uma abordagem científica rigorosa na avaliação de informações contemporâneas sobre material cartófilo, especialmente quando geradas ou difundidas por sistemas automáticos.

Assim, agradecemos o contributo de leitores especialista para a correção e melhoria da informação agora compilada, de forma aprofundarmos o conhecimento sobre o património postal do Algarve com o rigor que a investigação histórica merece.


quinta-feira, 24 de julho de 2025

domingo, 20 de julho de 2025

Marcas Postais do Algarve: Faro "208" em Exemplar de Luxo da Emissão D. Pedro V

Marcas Postais do Algarve: Faro "208" em Exemplar de Luxo da Emissão D. Pedro...:   1856/58 – D. Pedro V. Cabelos anelados. MF11, 25 reis, azul, tipo linhas simples, papel liso médio, não denteado.

Peça obliterada com carimbo numeral de 20 barras, atribuído à estação postal de Faro. O número 208 identifica inequivocamente esta localidade algarvia no sistema de carimbos numéricos em uso entre 1853 e 1870. O selo pertence à primeira emissão de D. Pedro V, com a efígie de perfil e cabelos lisos, impressa em tipografia. A nitidez do carimbo e a boa centralização valorizam a peça tanto do ponto de vista histórico como estético.


Marcas Postais do Algarve: Faro - Carimbo Nominal FAR - 3 Azul (06/09/1842)

Marcas Postais do Algarve: Faro - Carimbo Nominal FAR - 3 Azul (06/09/1842):  


📮 Carta Pessoal Pré-Filatélica – Faro para Lisboa, 6 de Setembro de 1842
    🗓️ Data: 6 de setembro de 1842
    📍 Origem: Faro, Portugal
    📍 Destino: Lisboa, Portugal
    ✉️ Remetente: José Bernardo da Cruz *
    🧾 Destinatário: Caspar João Pilaer Cônsul Geral dos Países Baixos
    📌 Conteúdo: Comunicação pessoal com referências a “Sra C. de Schickler” e “Srs Joly Frères”, provavelmente para mencionar o nascimento de seu filho António Bernardo da Cruz (que em idade adulta foi Vice Cônsul)

🧭 Descrição e Contexto Histórico
Esta carta é um exemplo representativo da correspondência pré-filatélica portuguesa, enviada em 1842, antes da introdução dos primeiros selos postais em Portugal (1853). Trata-se de uma carta comercial remetida por José Bernardo da Cruz, a partir de Faro, dirigida ao Cônsul Geral dos Países Baixos em Lisboa. O conteúdo sugere uma rede de contatos pessoais ou diplomáticos com casas europeias como Joly Frères e Sra C. de Schickler. De referir que o seu filho António Bernardo da Cruz nasceu no ano de 1841.

✒️ Elementos Manuscritos e Comerciais
A carta apresenta caligrafia cursiva típica da época, com anotações como “35 Rs pr.” (indicando o valor do porte: 35 réis) e “R 42” (possivelmente um número de registo interno).
O conteúdo reforça o valor histórico e temático da peça, inserindo-a no contexto das comunicações pessoais e diplomáticas do século XIX.

📬 Marcas Postais e Sinais de Circulação
  • Carimbo Oval Azul: Marca nominal de “FARO”, indicando o local de expedição da carta.
  • Carimbo Circular azul escuro: “LISBOA” com o número “9” acima e abaixo – marca de entrada ou trânsito na capital portuguesa.
  • Marca Quadrada Vermelha: Marca de fecho (lacre?)
  • A ausência de selo é coerente com o período pré-filatélico, em que o pagamento do porte era anotado manualmente.
🧾 Importância Filatélica
Esta peça destaca-se por:
  • Representar um exemplo autêntico de história postal comercial e diplomática portuguesa do século XIX.
  • Conter múltiplas marcas postais e manuscritas que documentam práticas de tarifação e circulação.
  • Ter valor temático para coleções sobre relações diplomáticas, comércio internacional, pré-filatelia portuguesa e rotas postais do Algarve.
🏛️ Estado de Conservação
Apesar de apresentar vincos e um pequeno rasgo lateral, a carta mantém excelente legibilidade e integridade estrutural, o que a torna adequada para exibição em coleções competitivas.


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